Notre-Dame

Notre-Dame é, mais do que uma jóia patrimonial, um tesouro simbólico para a cultura francesa e europeia.

O tema da reconstrução é recorrente na História desta obra. Sobrevivente de guerras, revoluções, revoltas e incêndios, a sua construção iniciou-se em 1163 pela mão dos arquitetos Pierre de Montreal e Jean de Chelles, prosseguindo-se os trabalhos até 1345.

Luis XIV alterou-a, forçando elementos do Barroco. A Revolução Francesa também deixou as suas marcas.

Finalmente, em meados do século XIX, Eugène Viollet-le-Duc reconstrói o edifício tal como o conhecemos hoje a partir das suas ruínas, segundo uma fantasia romântica que alterou fortemente, em vários aspetos, a leitura original da peça gótica.

O edifício fundou-se no século XII mas o que ardeu era do século XIX. Era de ontem.


Compreender o quê e como restaurar num edifício que foi sendo construído ao longo de seis séculos não é tarefa clara.

Até onde vamos na busca do verdadeiro monumento gótico? Ao falso-gótico de Le-Duc? À sua configuração anterior? A tal como era quando se concluiu a sua primeira fase? Ao projeto imaginário dos arquitetos originais? Porque não aproveitar e terminar a construção das duas torres, que nunca viram as suas agulhas concretizadas?

Agravando estas dúvidas, França já não tem 1300 carvalhos com a dimensão necessária para reproduzir a cobertura, nem os artesão para a executar.


Quando Viollet-le-Duc tomou para si a reconstrução de Notre-Dame não pretendeu replicar o original mas sim reinventá-lo, com um novo desenho mais condicente com os seus ideais arquitetónicos.

A agulha falsa de Le-Duc acrescentou algo novo a um dos mais amados edifícios parisienses e tornou-se amada ela mesma. Uma agulha “moderna” num edifício gótico.

Assim como Le-Duc, com apenas 30 anos, acrescentou e melhorou a Catedral no século XIX, também o tempo de hoje deve contribuir com o próximo passo da História do edifício.

Isto não quer dizer que a essência da Catedral deva ser perdida, ou que novos elementos devam dominar sobre o edifício medieval: a intervenção deve ser serena, respeituosa e evolutiva.

Como o próprio Le-Duc anotou, “temos de admitir que estamos em solo escorregadio sempre que divergimos da reprodução literal”. Mesmo assim, seguindo o seu exemplo, a nova agulha e cobertura devem ter um olho no passado mas interpretado pelo presente; devem basear-se em princípios góticos mas pertencendo ao nosso tempo.


Paris é uma cidade de património mas também de coragem arquitetónica.

A Torre Eiffel, por exemplo, concluída apenas 25 anos depois do restauro de Le-Duc de Notre-Dame, é tão amada pelos parisienses como as suas heranças patrimoniais. A pirâmide do Louvre ou o Centre Pompidou são outros exemplos do mesmo fenómeno.

Assim como Le-Duc, protomoderno e tecnófilo, foi capaz de estabelecer uma relação com o gótico medieval, também a arquitetura de hoje é capaz de humildade e dignidade, sem ter de subverter ou dominar Notre-Dame e os seus significados.

Notre-Dame não pode ser o edifício que era antes do incêndio (mesmo que a Catedral seja fielmente reconstruída, com materiais e técnicas próprios da época, continuarão a ser apenas réplicas), mas a nova recuperação pode ser um esforço colaborativo e coordenado muito mais delicado do que a intervenção de Le-Duc (fortemente transformadora mas que o tempo não deixou de validar).

É obrigação desta geração integrar o seu contributo discreto mas valorizador no contínuo histórico deste edifício complexo, impuro, mas imenso… e o tempo também a validará.