
Arquitetura
Hotel da Casa das Cerdeiras
Erguido em 1773 sobre as fundações de uma capela consagrada a São Gregório Magno (datada dos primórdios do século XVII), o Santuário do Senhor do Socorro permanece como um dos mais importantes destinos de peregrinação do Alto Minho. Situado na encosta da Serra da Labruja, vizinho do Caminho de Santiago e com amplas vistas sobre o vale do Rio Labruja, o Hotel da Casa das Cerdeiras integra este território e partilha com o Santuário parte da sua história.
A casa que hoje se apresenta resulta da sobreposição de sucessivos ciclos de construção, abandono, reconstrução e transformação, nunca devidamente documentados. O núcleo inicial, com elementos datados de 1747, corresponderia a uma estrutura simples e paralelepipédica de um só piso, cuja presença ainda se adivinha na composição das fachadas sobreviventes, cuidadosamente aparelhadas numa combinação de granito e xisto, refletindo a geologia particular do lugar.
O conjunto desenvolve-se a partir desse núcleo primitivo, representando uma arquitetura rural de matriz agrícola que revela, simultaneamente, uma riqueza e uma dignidade que a destacam do contexto imediato.
Como tantos edifícios do mundo rural português, foi crescendo de forma orgânica, tanto em área como em altura, através de sucessivas ampliações. Foi novamente reconstruído na primeira metade do século XX, já com estrutura porticada em betão no interior, mantendo a volumetria pré-existente (entretanto arruinada), desenhando um corpo em “L” que encerra um logradouro com acesso pela rua.
Da construção original persiste apenas parte das fachadas, no interior das quais ainda sobrevivem elementos que, pela sua natureza e acabamento, refletem a sua condição como propriedade do reitor do Santuário.
O exercício de reabilitação da Casa das Cerdeiras e a sua adequação ao programa de hotel implicaram, assim, abordagens distintas, respeitando o passado sem o mitificar, num convívio entre diferentes tempos, usos e memórias, dispersos por várias partes do edificado.

A reposição (ainda que simplificada e claramente distinta de um restauro especulativo) de elementos tradicionais já desaparecidos – como rodapés, coberturas, caixilharias ou portadas – nos panos de fachada sobreviventes procurou valorizar a preexistência, minimizando distrações introduzidas por intervenções posteriores.
Simultaneamente, procedeu-se à reconstrução de peças parcialmente desaparecidas (como o palheiro), reinterpretadas de forma a remeter para o que terão sido no passado, sem ambiguidades quanto ao tempo da intervenção.
As construções novas, que complementam o conjunto preexistente e respondem às exigências do programa em termos de área e desempenho, assumem uma linguagem claramente contemporânea. Desenvolvem-se horizontalmente, numa volumetria simplificada, subordinando-se às construções originais e permitindo, pelo contraste, que estas se afirmem e valorizem.
A organização do edificado assenta nos princípios do lugar, retomando a ligação entre a casa e o palheiro ao longo de um muro preexistente e estruturando, a partir daí, as ligações à nova ala de quartos.
O antigo terreiro transforma-se na grande sala da casa, enquanto os anexos se implantam atrás de muros de suporte graníticos, repetindo soluções que sempre caraterizaram o território da Casa, articulando os diferentes socalcos através de escadas pontuais.
Entre os socalcos da casa e da piscina em granito – memória dos antigos tanques de rega minhotos – abre-se um pequeno auditório, lugar de contemplação do pôr-do-sol.
A entrada, feita agora pelo antigo portão do logradouro, constitui o cartão-de-visita do conjunto. O grande vão é reinterpretado como uma porta de escala doméstica, onde se ensaiam referências à arquitetura vernacular do Alto Minho (as namoradeiras, o ripado dos espigueiros ou as tintas com pigmento de sulfato de cobre), constitui um vocabulário comum.
Ultrapassado este limiar, o visitante é acolhido por um plano vertical em espiral que organiza acessos e filtra pontos de vista, protegendo o núcleo da casa: uma sala que mantém a experiência de pátio exterior, desenhada por um tapete de mosaico hidráulico e por uma grande claraboia, inscrevendo a evolução da luz solar (e, à noite, a experiência do luar e do céu estrelado minhoto) no coração do espaço.

Subindo a escada, controlada por esse mesmo plano, descobre-se, no topo, um vão rasgado que oferece uma vista ampla sobre o Santuário e as copas envolventes, iluminando o espaço, ao nascer do dia, com uma luz filtrada pela vegetação.
Os espaços sociais do hotel organizam-se no piso térreo, incluindo, na casa preexistente, a sala de estar, a sala de jantar e uma pequena sala de inverno. Complementam-se com um quarto acessível, uma lavandaria, uma adega e uma instalação sanitária.
Seguindo um novo corredor que liga a casa ao palheiro reconstruído, encontra-se a cozinha, situada no rés-do-chão da nova construção. Embora contemporânea, recorre a materiais, detalhes e soluções que evocam a arquitetura popular minhota (louceiros, pedra mármore rosa, azulejo manual), transformando a memória em matéria de projeto.
No piso superior do palheiro, um espaço de refeições acompanha a cozinha e abre-se ao vale a Sul, protegido por um ripado que controla a exposição solar e filtra as vistas.
Esta reconstrução reproduz um sistema estrutural tradicional, com vigas e barrotes em madeira de carvalho sob um soalho de castanho, mantendo solução semelhantes na cobertura, agora integrando impermeabilização.
É no piso superior que se encontram os aposentos.
Na casa preexistente localizam-se uma ampla suíte e dois quartos. Atrás das fachadas sobreviventes mantêm-se rodapés altos, de desenho simples mas inspirado em tipologias tradicionais, bem como caixilharias e portadas em madeira. A cobertura, tal como no palheiro, retoma o sistema construtivo vernacular da região. Nestes espaços, os elementos tradicionais cruzam-se com elementos contemporâneos (como os rodapés embutidos e soluções minimais de compartimentações), numa transição fluida e sem ruturas.
O corredor que conduz ao piso superior do palheiro culmina num espaço charneira, marcado por um pátio exterior que enquadra uma oliveira e distribui as circulações entre a casa preexistente, o espaço de refeições do palheiro e a nova ala de quartos.
Nesta nova ala organizam-se aposentos simples, onde a relação com a paisagem do vale do rio Labruja assume o papel principal.
A obra preserva, assim, a lógica de um conjunto fragmentado, composto por volumes autónomos mas articulados, coroando um território desenhado por socalcos e robustos muros graníticos: uma história feita de tempos sobrepostos, todos enraizados no lugar, nos seus materiais, nas suas tradições e práticas construtivas.
O Hotel da Casa das Cerdeiras constitui, assim, mais um episódio no longo processo de reconstrução e adaptação que molda a história da casa desde a sua fundação em 1747, acrescentando mais um capítulo ao seu legado de continuidade e transformação, de permanência e renovação.
FICHA TÉCNICA
Nome do projeto: Hotel da Casa das Cerdeiras
Arquitetura: Atelier Tiago do Vale, Arquitectos
Equipa de projeto: Tiago do Vale, María Cainzos Osinde, Paula Campos; com Maria João Araújo, Louane Papin, Nil Kokulu, Margarida Bogas; e Clementina Silva, Adriana Gomes, Hugo Quintela, Joanna Jakimiuk, Kamila Legat, Adele Pinna, Laetitia Alves, Thuy Thu Nguyen, Camille Martin, Eva Amor, Karolina Zuba, Priscilla Moreira, Núria Gonzalez, Coraline Pothin, Florisa Novo Rodrigues, Riddhi Varma, Teresa Vilar, Dora Troha, Alara Çağla, Marija Matozan, Anabela Couto, Jan Momot, Nona Stoycheva, Carola Calogiuri, Saša Alekseja Kristavčnik, Naomi Fonseca.
Ano de projeto: 2015-2019
Programa: Hotel
Localização: Ponte de Lima, Portugal
Promotor: Montenegro & Fiuza, Lda, Capim Limão Country House
Construção: Vodul – Sociedade de Construções Civis, Lda
Especialidades: CIPC, Lda; Sprenplan, Lda
Ano de construção: 2021-2025
Área de implantação: 655 m² / 7050 ft²
Área de construção: 902 m² / 9710 ft²
Fotografia: João Morgado