A Casa de Gengibre


Espelhando a dura realidade da Europa medieval, Hansel e Gretel são abandonados pelos seus pais que, receando morrer famintos, preferem salvar-se a si próprios deixando os seus rebentos perdidos na floresta.

Depois de três dias de deambulação e com um apetite insaciável, as crianças encontram uma miraculosa casa de gengibre ornamentada com bolos, tartes e janelas de açúcar.

Sem perder tempo a considerar tão boa sorte imediatamente atacam a casa: nem a bruxa -satisfeita com a ideia de os colocar no forno- é capaz de os distrair da maravilha gastronómica destes doces arquitetónicos.


O conto dos irmãos Grimm ajudou a construir no imaginário de milhões de crianças uma ideia de “casa de história de encantar” que se tornou praticamente universal -e o imaginário infantil não é assim tão distante do imaginário dos adultos.

No século XIX muitas casas vitorianas eram adornadas com elementos inspirados nas rendas de açúcar e na confeitaria. Nos anos de 1920 popularizam-se nos Estados Unidos casas no estilo “Hansel e Gretel”, romanticamente imperfeitas e alegremente caricaturais.

Aquilo que nos conforma como crianças é, afinal, transportado connosco e define-nos também como adultos.


Muitas crianças chegam hoje à escola com graves défices no desenvolvimento da linguagem e de competências sociais. Removidas das brincadeiras de rua, privilegiam-se brinquedos tecnológicos -como consolas de jogos e tablets- em detrimento de outros. As crianças tornam-se recetores solitários e passivos de imagens num ecrã em vez de ativamente e criativamente criarem o seu próprio imaginário.

Como resultando, não possuem o repertório de experiências (adquiridas pela interação com objetos, com outras crianças e com contextos reais e imaginados) que o sistema educativo actual presume para sobre o qual construir conhecimento.


O currículo do ensino básico aborda de forma abstrata os aspetos fundamentais dos estudos sociais, da geografia, da história, da cidadania, da saúde, da matemática, da ciência, das artes e da linguagem. A arquitetura permite estudar todos estes temas de uma forma integrada e pode ser encarada, no fundo, como uma manifestação concreta desses mesmos estudos.

Há, portanto, pertinência em incorporar a arquitetura no currículo educativo as como ponte aglutinadora entre a experiência física, manual e criativa em falta e o conhecimento abstrato convencional das escolas.

Este tipo de ensino integrado estimula o pensamento visual e ensina a recolher informação, a observar, a identificar necessidades, a enquadrar e resolver problemas, a explorar e avaliar contextos, a pesar alternativas, a aprender colaborativamente, a comunicar ideias (verbalmente e graficamente) e, crucialmente, a pensar de forma crítica: tudo ferramentas fundamentais para o desenvolvimento de cidadãos maduros e capazes de aceitar um papel ativo na sociedade.


A Architectural Association tem levado, através do seu programa “Little Architect”, a arquitetura às escolas primárias de Londres.

A sua convicção é a de que a promoção do pensamento criativo e de uma melhor compreensão do ambiente construído por parte das crianças é peça fundamental para a criação de um mundo sustentável e de cidadãos que exigem sustentabilidade.


É primordial que as próximas gerações cresçam com a convicção (e com as ferramentas críticas e criativas para o fazer) do seu potencial colectivo de mudar o futuro para o melhor.