Confirmando a excelente receptividade que o Chalé das Três Esquinas tem recebido do lado de lá do Atlântico, damos conta da sua publicação no número 44 da revista Habitare, a primeira de 2014!


Portugal com Tempero Brasileiro

Casa portuguesa do século XIX foi repaginada com toques de modernidade



Durante a segunda metade do século XIX, Portugal assistiu ao regresso em grande número de emigrantes, que tinham se aventurado no Brasil. Na bagagem, grandes fortunas acumuladas no comércio e indústria das grandes cidades brasileiras.

Além do dinheiro, eles também levaram muita influência cultural e um toque cosmopolita ainda estranho ao Portugal oitocentista, que apenas começava a respirar as primeiras lufadas de liberalismo. Essa combinação polvilhou as cidades do Norte de Portugal com exemplos de arquitetura de qualidade, únicas no contexto urbano em que se inserem e que reúnem o melhor do que era feito tanto pela Europa como pelo Brasil.

O Chalé das Três Esquinas é um exemplo claro da influência brasileira na arquitetura portuguesa do século XIX, construído segundo o modelo idealizado de um chalé alpino, popular no Brasil da época (de proporções altas, janelas verticalizadas, telhados inclinados e beirados decorados).

A equipe do escritório Tiago do Vale Arquitectos tomou como missão recuperar a identidade do edifício oitocentista, perdida em 120 anos de inúmeras pequenas obras não qualificadas. A intenção era de clarear os seus espaços e funções, adequando-os ao estilo atual de se morar.

O cliente pedia a convivência entre um espaço de trabalho e um programa de habitação. Dada a reduzida área de implantação (60 m2), a estratégia foi de hierarquizar as áreas pelos pisos, correspondendo a cada lance de escadas um maior grau de privacidade.

A vontade de garantir o máximo de transparência por todo o prédio, permitindo que a luz o cruze de frente a frente e do topo ao chão, definiu todas as estratégias de organização e compartimentação do local, resultando numa solução próxima à de um loft vertical.

“Em nossa primeira visita ao local, percebemos que o prédio pedia, desesperadamente, duas coisas: primeiro que o libertassem de toda a construção avulsa que o sufocou e que comprometeu a clareza e a lógica com que originalmente organizava os seus espaços; e em seguida que se permitisse à luz que permeasse os seus espaços. Era preciso maximizar tanto a luz como a transparência para permitir que o edifício respirasse”, declarou Tiago do Vale.

Aproveitando uma diferença de 1,5 m entre a rua e o interior do quarteirão foi possível posicionar o espaço de trabalho no piso térreo. Os ambientes domésticos se relacionam com a fachada posterior, voltada para uma praça, no interior do quarteirão. O segundo piso cou reservado para as áreas sociais.

Subindo os últimos lances de escada, chega-se ao ambiente de dormir, espaço onde o protagonismo fica por conta da cobertura, cujo sistema construtivo é mantido aparente, embora pintado de branco. Do outro lado da escada, fica o quarto de vestir e o banheiro.

A escolha dos materiais e acabamentos é intencionalmente limitada: a cor branca, nas paredes, tetos e carpintaria em geral, pelas suas qualidades espaciais e luminosidade; a madeira na sua cor natural, nos soalhos e no quarto de vestir, pelo calor e conforto; e o mármore branco de Estremoz, no revestimento do piso térreo, nos balcões e no chão e paredes dos banheiros e lavandaria pela textura, reflexibilidade e cor.

Toda a caixilharia da fachada principal foi reposta em madeira, a cobertura foi refeita com telha Marselhesa original sobre uma estrutura de abeto e pinho e o beirado decorativo restaurado ao seu estado original. O assoalho foi recuperado com pinho americano sobre a estrutura original.

“No fundo, a nossa opção foi elementar: restaurar a casa às suas condições originais mas com a sutileza de acrescentar algo para além do restauro cego, capaz de devolver esta casa à sua função, ao uso, vivido com genuína qualidade de vida, à rua, à cidade, e ao tempo de hoje, e fazê-lo dotando-a de flexibilidade suficiente para que se mantenha útil e viva por outros 120 anos”.