No nosso mais recente artigo para a Revista Anteprojectos, debruçamo-nos sobre as formas que a educação em arquitectura pode tomar no século XXI.

 

 

Apesar da sua pluralidade e multidisciplinaridade, a arquitetura é uma das poucas profissões que preservou a sua especificidade e integridade ao longo de milénios, alargando o seu alcance, aumentando a sua complexidade, mas nunca cedendo às pressões de especialização a que outras disciplinas não resistiram.

Ao mesmo tempo é notável que, desde o início do século XIX e apesar de alterações radicais na sociedade, na profissão, no pensamento, nas instituições de ensino e nos conceitos pedagógicos, o atelier, o estúdio ou a sala de projeto permanecem no centro do ensino da arquitetura numa forma essencialmente inalterada desde o seu primeiro esboço há duzentos e cinquenta anos atrás.

 

Apesar da longevidade da sala de projeto sempre houve mudança no ensino da arquitetura de acordo com recorrentes pressões epistemológicas, tecnológicas, sociais ou até económicas. Hoje mesmo lidamos, na generalidade, com princípios pedagógicos herdados do Movimento Moderno (e, em alguns aspetos, até mesmo das Belas-Artes) confrontados com uma integração (por vezes forçada) no contexto universitário e uma padronização encetada pela Declaração de Bolonha, quando estes modelos ainda tentavam adaptar-se às mudanças trazidas pelas tecnologias da informação, o uso de computadores em vez de estiradores, novas tecnologias construtivas, conceitos pedagógicos experimentais (como o atelier virtual, sem papel ou até sem lugar físico), etc., todas elas questionando o paradigma do papel central das “salas de projeto”. Para além destas circunstâncias, existe uma pressão -maior hoje de que alguma vez foi- para reduzir os custos operativos das instituições, o que terá, necessariamente, consequências para o seu modelo educativo.

 

Todos os anos, a DesignIntelligence publica o Almanac of Architecture and Design, incluindo nele uma série de sondagens em mais de 800 gabinetes de arquitetura nos Estados Unidos da América. A pergunta central que fazem é: “Segundo a experiência de contratação da sua firma nos últimos 5 anos, que escolas, na sua opinião, têm os alunos melhor preparados para a profissão da arquitetura?”

No ranking resultante emergem escolas grandes e pequenas, distribuídas por todo o território do país. O denominador comum entre estas escolas é uma filosofia pedagógica denominada de “Knowledge-Based Design”.

Este modelo pedagógico implica que o campo da arquitetura tem um domínio do conhecimento próprio, seu, que o aluno deve dominar, contrariando as assunções correntes de que o arquiteto deve explorar o conhecimento de outras disciplinas, de que o arquiteto têm um conhecimento genérico acerca de tudo, mas profundo acerca de pouca coisa, e que é um “artista” mais do que um técnico.

Assim, percebe-se que os gabinetes de arquitetura, pelo menos nos Estados Unidos, não procuram apenas arquitetos capazes de pensar de forma criativa, mas também capazes de produzir um bom projeto, dentro de um prazo.

É muito interessante ver outros resultados destas sondagens: do ponto de vista do empregador, 90% dos arquitetos recém-chegados da escola não têm conhecimento suficiente acerca de como um edifício é construído. 16% necessitam melhorar as suas capacidades informáticas, e 14% não sabem desenhar. 2% não sabem investigar, e outros 2% não têm capacidades de projeto.

O que estes dados nos revelam é que, pelo menos no que diz respeito aos Estados Unidos, o mito da colisão entre as tecnologias digitais e o método de projeto tradicional é desmistificado: é evidente que os alunos se sentem confortáveis tanto num meio como no outro. É interessante também notar que os ateliers que contratam estes recém-licenciados veem-nos como bons investigadores e como sendo capazes de desenvolver um projeto bem desenhado, embora sem ideia de como o construir…

 

É, portanto, evidente que o que se pede a um arquiteto é pragmatismo e criatividade para resolver problemas do mundo real, de forma quase técnica, atenta aos pormenores legislativos, aos desenhos construtivos, ao orçamento e ao cliente.

Mas será que o ensino da arquitetura não deve mais do que isso à profissão? Será que o arquiteto já não é aquele que deve servir os interesses do cliente e da sociedade, elevar o espírito humano, preservar o ambiente, abordar os problemas sociais e expandir as fronteiras estéticas?

Se quisermos podemos, até, fazer a pergunta elementar: “O que é boa arquitetura?” Ou, radicalmente, a mais fundamental de todas: “O que é arquitetura?”. Sabemos que cada tempo teve a sua própria resposta, portanto não é disparatado fazer esta pergunta de novo, a cada momento.

Como disse Nuno Portas, é “difícil [a] escolha entre uma vasta preparação geral científica e histórica, eventualmente comum a outros cursos afins (…) e uma preparação especificamente arquitetónica, baseada nas disciplinas históricas e estéticas e no treino da perceção sensível e do projeto executivo”.

 

Outro dos temas sempre presente na discussão contemporânea da arquitetura é o da integração entre arquitetos, professores de arquitetura e investigadores de arquitetura (que, por vezes, parecem de facto não operar no mesmo sistema), e o do trabalho em equipa (na arquitetura mas também interdisciplinarmente) em detrimento do trabalho individual:

Nas palavras de Rosie Parnell, “collaboration is not, apparently, a strength of the architecture profession. Numerous reports have pointed to the fact that architects are week in team-working and communication skills. But, perhaps of greatest concern is evidence of a perception, held by both the construction industry and also by the public, that architects are arrogant”.

…Ou mais sucintamente na voz de Rachel Sara, “architects are described as arrogant, poor listeners, and their education seems to be to blame”.

 

Que forma deve tomar, então, a educação em arquitetura no século XXI?