O projeto da Casa da Rua das Caldas resolve-se em circunstâncias especiais, únicas e altamente específicas.


Numa envolvente de matriz rural relativamente densa, o lugar aparece confinado, pedindo relação com a paisagem mais distante e a luz de sul.

Contraditoriamente, é também esta envolvente imediata o que mais fortemente o caracteriza, com uma sucessão de pequenas leiras, canteiros, hortas, muros de suporte e percursos que vencem as diferenças de cota e integram, contextualizam, humanizam e dão escala a esta pequena porção de paisagem genuinamente minhota.

A construção pré-existente reduziu-se a um conjunto de paredes periféricas autoportantes após um incêndio que consumiu a maior parte do seu miolo.


A intenção foi a de gerar uma intervenção mínima, capaz de resolver um programa residencial completo tocando apenas cirurgicamente na pré-existência, respeitando o que é já um espaço positiva e fortemente caracterizado, qualificado pelo tempo e pelo conhecimento vernáculo.

Esta estratégia permite não só tirar o máximo partido das características da construção pré-existente e da sua envolvente, mas também possibilita uma obra mais ligeira, limitada e focada.


Esta resposta precisa, no entanto, de ultrapassar as limitações que a situação apresenta.

Por um lado, a envolvente imediata é particularmente encerrada, inibindo tanto a luz natural em praticamente todos os quadrantes como as vistas para a paisagem mais remota e, potencialmente, comprometendo o sentido de reserva e privacidade.

Pelo outro, as paredes que constituem a construção original são particularmente opacas, com vãos em número reduzido e de pequena dimensão, sofrendo especialmente o piso inferior, com apenas uma frente.


Um generoso pátio interior, tomando pistas das várias fases da construção original, permite a criação de espaços generosamente abertos sem pôr em causa as necessidades de privacidade e intimismo próprias de um lar.

Sobre-elevamos também a laje de cobertura, permitindo uma iluminação natural mais ajustada em todo o programa.


A posição natural da garagem no piso inferior da construção pré-existente revelou-se demasiado onerosa para que se tornasse pragmaticamente possível.

Esse esforço implicaria não só a demolição de parte importante da pré-existência -e esforços suplementares de consolidação consequentes- como também, sobretudo, a construção de um acesso à cota inferior que obrigaria à destruição das leiras, muros de suporte e percursos que nos parecem ser os elementos mais qualificadores e identitários do lugar.

Esta solução seria demasiado danosa, e o seu uso seria funcionalmente limitado, falhando na apresentação de vantagens claras capazes de a justificar em definitivo.


Propõe-se assim um novo volume ligeiro, construído a norte da pré-existência.

Este volume, que pode ser construído de forma simples, protegerá o acesso principal à casa, qualificando-o desenhando e ordenando um novo adro de chegada.

Esta solução viabiliza, especialmente, um acesso de nível da garagem à habitação, simplificando as acessibilidades.


Finalmente, desenhou-se um momento excecional de relação com a paisagem e a luz, acima da cota das paredes pré-existentes, abrindo vistas amplas sobre os telhado vizinhos, onde se insere a sala de leitura.