Quarta parte da nossa série de artigos acerca do ensino da arquitectura, na Revista Anteprojectos.


O uso contemporâneo da palavra “arquitecto” só surge no século XVI. É nesta altura que o contexto oficinal do ensino da arquitectura -em que a formação de um arquitecto consistia do vínculo entre mestre e aprendiz, trabalhando em estaleiro de obras- começa a ser substituído por um ensino estruturado da arquitectura, iniciando-se um processo de separação dos vários saberes (que até aí confundiam o arquitecto com o mestre pedreiro, com o arruador, com o engenheiro civil ou com o engenheiro militar, como descreveu Nuno Portas).

A formalização do ensino da arquitectura força uma clarificação da filosofia desse ensino e da forma do profissional resultante, lançando as bases para a constituição dos primeiros protótipos de correntes pedagógicas contrastantes.

Este processo começou pouco antes de se formalizarem pedagogias de ensino da arquitectura, com a instalação de instituições dedicadas à formação e ensino de artistas em Itália a partir da segunda metade do século XVI, incorporando, mais tarde, alunos de arquitectura no seu corpo discente.

Mas foi preciso esperar pela segunda metade do século XVII, em Paris, para encontrar as primeiras tentativas de sistematizar o método de ensino da arquitectura, reflectindo as teorias arquitectónicas da época.

A primeira forma de ensino de arquitectura institucionalizada foi na Académie Royale d’Architecture, parte de uma estratégia de estruturação e centralização cultural de Louis XIV. A Académie foi fundada por Colbert em 1671, em Paris, e funcionou até 1793 quando, assim como outras academias, foi absorvida pelo Institut de France. A sua missão era a de investigar a teoria da arquitectura, controlar um modelo standard de ensino, torná-lo público e generalizá-lo no treino de futuros arquitectos. No entanto, a evolução da escola foi influenciada pelas preocupações que dominavam o mundo dos arquitectos da época (numa profissão ainda em formação) assim como pela transição de um sistema de valores medieval para um moderno.

O estabelecimento da Académie tinha como intenção fundar um novo tipo de arquitectura, que integrasse vontades culturais e funcionais centralizadas no poder real e, portanto, sujeita à autoridade do rei, abdicando das estruturas corporativas que protegiam a profissão até então.

Uma das vias para que a arquitectura elevasse o seu status como desejado passava pela construção do seu próprio património teórico. A teoria da arquitectura no século XVII em França era o resultado do confronto entre duas tendências diferentes: por um lado, a continuidade dos ideais da Renascença italiana (construída por artistas italianos que trabalharam em França desde o século XVI) e, por outro lado, a vontade dos arquitectos franceses de definir uma teoria e uma arquitectura específicas. Esta última cumprir-se-á, em parte, durante o século XVII, com uma teoria da arquitectura influenciada por Vitrúvio: a tradução, disseminação e interpretação dos seus textos motivará o reconhecimento da arquitectura como uma actividade nobre.

A constituição da Arquitectura como uma profissão distinta é contemporânea ao aparecimento da indústria, à ascensão da burguesia, e à modificação das formas de representação do mundo. No centro desta alteração está o modelo cartesiano que essencialmente, segundo Françoise Fichet, “impunha uma ordem conceptual sobre as coisas, para as compreender e controlar”. Ao mesmo tempo, o mundo cultural e filosófico francês do século XVIII era dominado por uma disputa entre partidários da antiguidade e partidários da modernidade. O conjunto destes dois fenómenos levou a uma abordagem racionalista da arquitectura, identificando o conceito de “Beleza Absoluta” com o modelo antigo.

A Académie Royale d’Architecture acabará por ser encerrada, da mesma forma que outras academias reais foram suprimidas na sequência da Revolução Francesa de 1789.

A École des Beaux-Arts é a instituição que dá continuidade ao ensino da arquitectura tal como prefigurado na Académie, legando um sistema educativo, influencial e funcional, que existirá durante quase dois séculos, entre 1793 e 1968. Ao contrário da Académie e de outras escolas afiliadas, fundadas e mantidas pelo poder real, as Beaux-Arts foram consequência de um processo de mais de duas décadas, informado por antigos académicos, cabeças de estado (revolucionários, Napoleão, Louis XVIII) e outras personalidades artísticas e políticas.

Foram, sem dúvidas, causas externas as que levaram ao encerramento da Académie e ao nascimento, a partir da sua herança, das Beaux-Arts: o final do século XVIII e o início do século XIX são marcados por profundas alterações sociais e políticas. A revolução, o império napoleónico e, depois, o regresso ao regime real foram processos que abalaram toda a sociedade mas, em particular, a coroa e as instituições do estado consigo relacionadas. A Académie, assim como outras escolas, foi abolida pela Convenção para renascer mais tarde, primeiro como Institute de France e, depois, integrada numa instituição que reunia as chamadas “Belas Artes”. Tanto as Beaux-Arts como o Institute tinham nos seus quadros professores oriundos da Académie, portadores da sua cultura teórica.

Quase simultaneamente, em 1794, a École des Ponts et Chaussées transforma-se na École Polytechnique, onde se treinam engenheiros, tendo como personalidade fundadora Jean-Baptiste Rondelet, pupilo de Jean-François Blondel. Fornecia um modelo de ensino alternativo ao das Beux-Arts, mantendo ambas as escolas um relacionamento de cooperação, mesmo que por vezes também de competição.

O final do século XVIII é marcado, no plano teórico, pelo triunfo da racional filosofia Iluminista, e também o mundo da arquitectura é seduzido por ela. A principal consequência dessa aproximação é a demolição do classicismo, dos seus princípios e da “beleza absoluta”, substituindo-os por uma variedade de ideias artísticos e doutrinas que alimentam uma época rica do ponto de vista formativo, mas que afastam as Beaux-Arts das suas origens teóricas.

Nesta época em que o relativismo extremo se manifesta em todas as áreas, arquitectos, professores de arquitectura e até mesmo construtores estavam convencidos da validade das suas concepções de arquitectura. Nas Beaux-Arts os alunos aprendiam aquilo que cada professor considerava individualmente como importante, sem a preocupação de procurar justificações mais profundas para essa opção.

Comparando com o programa inicial da Académie (onde a teoria era o principal tema da aprendizagem) ou do ensino de Jean-François Blondel (destinado a assegurar a continuidade entre teoria e prática, entre princípios e a sua aplicação), durante os anos de formação das Beaux-Arts o ensino era essencialmente no atelier, fora da escola. A doutrina pedagógica confundiu-se com a doutrina pessoal de cada professor, independentemente de dar resposta ou não aos problemas cristalizados na segunda metade do século XVIII: a relação com outras culturas e outro passado arquitectónico, novas tecnologias e um novo tipo de sociedade.

Nesta primeira fase, a École des Beaux-Arts não aparenta desenvolver nenhuma estratégia pedagógica própria associada a um suporte teórico original, e é na École Polytechnique que se ensaia um novo modelo pedagógico assente em ideias racionalistas.

Jean-Nicolas-Louis Durand proporá na Polytechnique  um paradigma de ensino novo –e até, de certa, forma radical- moderno, pragmático e científico, apoiado sobretudo numa matriz de conhecimento explícito que podemos reconhecer hoje no modelo pedagógico de tipo universitário.<img class="alignnone size-full wp-image-12154"