A revista Anteprojectos incluiu-nos entre os 50 ateliers de referência na Arquitectura Portuguesa: é com muito gosto que representamos a cidade de Braga nesta selecção.


Neste número continuamos também a nossa série de artigos dedicados ao Ensino da Arquitectura.


Na Grécia Antiga dois termos estavam em uso para designar aquilo a que hoje chamamos de “arquitecto”: “Mechanikos” e “Architekton”.

Literalmente, “mecane”, à época, designava “fenómenos complexos” e “mechanikos” “aqueles que resolviam problemas complexos”. Na verdade, o título de mechanikos era recebido por quem dominasse um determinado curricullum -uma formação teórica delineada pelo geómetra Pappus de Alexandria (um dos últimos grandes matemáticos gregos da antiguidade, professor em Alexandria e autor de várias obras, célebre sobretudo pelo seu trabalho em geometria) alicerçada no conhecimento da geometria, aritmética, astronomia e física, para além de componentes práticas relacionadas com a construção e os materiais- e é um termo aplicado a numerosos arquitectos Romanos e Bizantinos. A denominação “magistri comanici” –etimologicamente derivada de co-manicus (co-mechanicus, significando um dos membros da associação de arquitectos, ou co-maçon) e implicando a existência de um grémio profissional- era de uso corrente na Lombardia pelo século VII, embora tenha caído em desuso durante a alta Idade Média.

Este termo é anterior à denominação clássica de “arquitecto”, que era aplicada àqueles que não detinham o conhecimento teórico segundo a escola de Pappus, mas sim uma formação pragmática, técnica e orientada para os temas práticos da arquitectura.

Na Grécia Antiga não havia distinção entre aquilo que era arquitectura, engenharia ou planeamento, e o termo “arquitecto” podia ser aplicado a todos aqueles que se ocupassem da concepção de estruturas complexas, como navios, objectos mecânicos ou máquinas militares.

Podemos entender esta bipolarização como paralela à ideia de “Escola Tácita”, focada e delimitada pelo domínio exclusivo da arquitectura do ponto de vista operativo, e de uma “Escola Explícita” dos mechanikos, ultrapassando o domínio estrito da prática e da técnica.

Voltando ao discurso cultural de Kipnis, no entanto, é fácil perceber que, no contexto da época, o conhecimento explícito dos mechanikos era aquele com mais ambições culturais, reflexo de um tempo em que o conhecimento explícito era simultaneamente limitado na sua extensão -permitindo que um único homem pudesse pretender conhecê-lo de forma genérica na sua globalidade- e reservado a uma exclusiva elite intelectual. O conhecimento tácito, por outro lado, era corrente, não intelectualizado e pouco ambicioso.

O entendimento destas duas correntes pedagógicas no ensino da arquitectura é profundamente ilustrado pela leitura dos tratados clássicos de Vitrúvio e Alberti. Na verdade, o conjunto dos textos de ambos é, provavelmente, o alicerce onde assenta todo o pensamento arquitectónico de hoje e o manancial de onde parte toda a formalização do ensino da arquitectura no mundo ocidental.

Assim, segundo Vitrúvio, o arquitecto “Deverá ser versado em literatura, perito no desenho gráfico, erudito em geometria, deverá conhecer muitas narrativas de factos históricos. Ouvir diligentemente os filósofos, saber de música, não ser ignorante de medicina, conhecer as decisões dos jurisconsultos, ter conhecimento da astronomia e das orientações da abóbada celeste”.

…ou pelo outro lado, nas palavras de Alberti, “It may serve his purpose if he is a thorough master in those elements of painting which I have wrote; and if he is skilled in so much practical mathematics, and in such a knowledge of mixed lines, angles and numbers, and is necessary for the measuring of weights, superficies and solids, which part of geometry the Greeks call Podismata and Embata.

Temos, assim, por um lado, a visão expansiva, agregadora e multi-disciplinar de Vitrúvio, reflectindo com rigor os princípios da “Escola Idealista” e, pelo outro, a visão circunscrita, focada e prática de Alberti, aparentemente encarnando a filosofia da “Escola Pragmática”.

Podemos associar a duplicidade Vitruvio/Alberti aos paradigmas de Kipnis de escola idealista/escola circunscrita, com muita propriedade. Podemos mesmo, até, referenciar a tradição helenística do Mechanikos e prolongá-la em Vitrúvio, ou fazer o mesmo entre o Architekton e o Alberti. No entanto, embora a leitura de Kipnis centrada na ambição cultural de cada escola tenha eco em ambos os tempos, o discurso da psicologia cognitiva falha: tanto Vitrúvio como Alberti são símbolos de um tipo de conhecimento explícito, em forma de tratado.

Numa segunda análise, é evidente que o modelo de Kipnis também falha: Alberti era um humanista, tão pouco circunscrito –ou menos- que Vitrúvio. A sua obra e os seus escritos reflectem precisamente o contrário de um conhecimento fechado e as afirmações que o podem sugerir têm um significado muito mais profundo. A sua intenção ao delimitar o campo de conhecimentos do arquitecto era a de clarificar o domínio profissional da arquitectura, legitimando-a e dotando-a da ferramenta necessária para reclamar um território próprio -as suas fronteiras- fazendo-o como reacção à sugestão lata e ambígua de Vitrúvio de que tudo informava o arquitecto, e o arquitecto informava tudo.

Podemos portanto concluir, com relativa segurança, que neste sistema está sempre presente uma bipolaridade, um leque entre cujos extremos a pedagogia das escolas de arquitectura se move, uma dualidade de conceitos pedagógicos que se confrontam e que é permanente e transversal à história.

Podemos também defender que as escolas individuais raramente correspondem a um desses contrários, mas sim ao espaço ente eles, embora algumas, em determinado momento da sua história, possam constituir paradigma de um ou outro dos extremos.

Estes pólos não são eternos -nenhuma etiqueta sobrevive ao teste do tempo.

Também é geral o facto de que um dos contrários é uma reacção ao outro, sendo a reacção de Alberti à didáctica de Vitrúvio um exemplo primordial dessa tendência.

Da mesma forma, o modelo académico é uma reacção ao tipo de ensino estritamente tácito da relação mestre-pupilo, e o movimento moderno propõe um equilíbrio entre as duas tendências, absorvendo o património explícito que é defendido já deste Polytechnique. O pós-modernismo, por outro lado, desequilibra a balança a favor do conhecimento explícito, alargando o campo temático da arquitectura e muitas vezes substituindo projecto por investigação.

É neste sistema de acção e reacção que apoiaremos o estudo das escolas que se seguirão.