Revista RUA: A Outra Casa de Gengibre


Como disciplina, a arquitetura ambiciona transformar o mundo natural num ideal humano. Esta metamorfose da imprevisibilidade da natureza em “Resistência, Funcionalidade e Beleza” vitruvianas tem sido um dos seus desígnios centrais desde sempre: é uma das motivações humanas mais elementares, da cabana às cidades.

No entanto, para criar estes extraordinários ecossistemas humanos pagou-se sempre o preço do sacrifício dos ecossistemas naturais: o impacto arquitetónico não acontece sem impacto ambiental.


Apesar desta obsessão ancestral de transformação do mundo, o conceito de sustentabilidade em arquitetura tornou-se pedra angular nas últimas décadas do século XX e foi evoluindo em direção a uma definição holística de “minimização do impacto ambiental dos edifícios”.

Para além do seu efeito na ecologia do lugar, a construção de um edifício requer centenas de produtos que, eles próprios, são compostos por elementos provenientes de milhares de locais de todo o mundo. A produção de cada um desses elementos individuais tem um impacto no seu ambiente natural.

É, portanto, uma definição simples mas que toca um efeito planetário.

No entanto, entender a sustentabilidade como uma “minimização” é insuficiente para o futuro: a sustentabilidade não pode ser apenas a medida de quão “menos mau” um edifício é.

Embora o efeito de um único edifício possa não ser de grande consequência para o ambiente os efeitos cumulativos são devastadores.

Apesar da sociedade pagar o preço escondido da construção negligente não é responsabilidade da sociedade mudar a prática dos arquitetos. Essa obrigação pertence aos arquitetos.


A Humanidade evoluiu, durante centenas de milhares de anos, no contexto do ambiente natural: centenas de milhares de anos em que a nossa espécie prosperou naquilo que a natureza lhe ofereceu.

Mesmo estando hoje quase completamente conformados pelo espaço construído continuamos a procurar a natureza e retiramos do contacto com o ambiente natural claros benefícios físicos e mentais.

É inquestionável que a ligação com a natureza potencia o bem estar e a saúde das pessoas: mesmo a presença visual de uma árvore é notoriamente capaz de diminuir os níveis de stress de quem habita o ambiente construído.

Estamos obrigados a uma radical mudança de paradigma que deve aceitar a natureza como ponto de partida, como geradora de arquitetura, que utilize os sistemas naturais existentes no local como matéria de projeto e que se inspire na engenharia de milhões de anos de evolução: a inclusão do lugar na arquitetura, da natureza presente, dos materiais locais e do potencial climático do sítio é a única forma de produzir edifícios sustentáveis.


Recordando W.G. Clark, “a qualidade mais importante da arquitetura é a forma como se relaciona com um lugar na Terra e como o dignifica. É por essa razão que a arquitetura que mais admiramos, seja ela o produto de um indivíduo ou de uma civilização, é aquela que foi construída com um sentido de pertença e de lealdade à paisagem natural”.

Com promotores e construtores é preciso decidir contribuir no sentido de uma maior responsabilidade ambiental. Chegando-se a esse compromisso a construção sustentável tornar-se-á a norma.