Revista RUA: Singularidade

Conversava recentemente com Sasikala Rajeswaran, jornalista de arquitectura Indiana, que com esta pergunta revelou, sem querer, uma das mais pertinentes fragilidades da cultura arquitectónica corrente:

“Dotar cada novo projecto de novidade e de singularidade é um desígnio dificílimo: como é que o superam?”

 

É norma encontrarmos, hoje, arquitectura desenhada especificamente com a finalidade de causar espanto e de se apresentar como peça excepcional.

Não é surpreendente: desde as escolas (onde a ideia e a singularidade se sobrepõem frequentemente à eficácia, à execução e à integração) até à mediatização da arquitectura (assente na imagem imediata, no simplismo conceptual e na fabricação de starchitects como figuras heróicas) há a construção de uma cultura arquitectónica superficial, assente na surpresa, nas modas, na arbitrariedade e nos gimmicks.

Infelizmente a obra construída é invariavelmente mais perene do que as modas ou do que a surpresa efémera de um truque arquitectónico. O resultado, quando o edifício esgota esses seus únicos argumentos, é um enorme bibelot que a cidade suportará por décadas a fio.

É, também, uma pobre forma de fazer cidade: como se pode gerar um contínuo urbano, com uma identidade comum e uma imagem reconhecível, se todos os edifícios tentam ser uma excepção?

 

A boa arquitectura é, provavelmente, menos estridente, desenhada com critérios mais profundos e mais capazes de sobreviver à passagem do tempo.

São precisas mais obras atentas à envolvente e que com ela estabeleçam relações de harmonia, experiências arquitectónicas dedicadas ao uso e a quem usa, estéticas apoiadas em valores permanentes como a ordem, o ritmo, a escala e a proporção, materiais que envelhecem com dignidade e que pertencem ao lugar…

Falamos de arquitectura que -no fundo- aprenda algo do contínuo de construção que chega até aos dias de hoje, cheio de exemplos altamente qualificados, e que não tente reinventar a arte a cada segundo.

 

Winy Maas, do mítico estúdio holandês MVRDV, publicou recentemente “Copy Paste”, um livro em que defende que a cultura da singularidade está a prejudicar a inovação em arquitectura.

Ao contrário da ciência, que progride desenvolvendo-se sobre conclusões anteriores, a arquitectura tem recusado reconhecer e construir sobre os ensinamentos do passado. “Porque não aprofundar a nossa análise arquitectónica? Porque não sermos abertos e honestos em relação às referências que fazemos? Porque não desenvolver e melhorar as inovações, explorações e sugestões dos nossos predecessores?”, defende. “Hoje treinamos os nossos arquitectos para serem originais […] o que parcialmente é correcto, mas penso que 90 por cento do ambiente construído não é acerca da originalidade.”

 

Esta obsessão pela singularidade tem destruído a identidade das cidades com um conjunto de construções realmente anti-urbanas, cada uma gritando mais alto do que a outra, abafando ideias melhores e mais sustentáveis a longo prazo.