Académica de Évora

A escolha de um tipo de letra como ponto de partida para o desenho de um símbolo é sempre muito conveniente e, muitas vezes, tudo o que realmente é necessário. Vejamos. (…)

Aqui estão dois exemplos: Caslon e Bifur.

Caslon é um tipo de letra desenhado em 1725 por William Caslon, e parece ser uma boa escolha por ser simultaneamente elegante e clássica, qualidades adequadas a uma instituição com uma certa formalidade no contexto educativo.

Bifur é um tipo recreativo, por A. M. Cassandre, desenhado mais recentemente (em 1929). É um desenho pouco convencional mas engenhoso que, para algumas pessoas, implica visualmente juventude e inconformismo (embora a atribuição de certas qualidades mágicas a um tipo de letra particular seja um assunto muito subjectivo.)

Uma das razões para olhar para um número de possibilidades de tipos de letra é a satisfação da curiosidade de ver os seus efeitos. Outra, provavelmente mais significativa, é para estudar a relação entre diversas combinações de letras, procurar analogias visuais, e tentar descobrir aquilo que uma letra ou grupos de letras pode inspirar.

Aqui tentamos mais algumas escolhas mas, por muito que exploremos diferentes exemplos -sem serifas, com serifas, a negrito, condensado, expandido, etc.- a questão principal torna-se aparente: «AAUE» é um conjunto de letras sem um significado mnemónico particular. Não invoca, no imaginário de quem as lê, nenhuma memória ou sistema de valores.

O desafio, portanto, é como tornar este conjunto de letras diferente, permitindo-o não apenas evocar mais do que as letras que o compõe mas também dotá-lo de elementos que o tornem memorizável.

Desenhada em maiúsculas, a sigla AAUE carrega pouco do significado daquilo que representa: Associação Académica da Universidade de Évora.

Das 4 palavras, nem todas têm o mesmo valor («Académica» e «Évora» significam mais acerca da instituição do que as palavras genéricas «Associação» e «Universidade»).

Aqui estão algumas possibilidades que exploram o uso de minúsculas e outros artifícios para clarificar essa hierarquia e, simultaneamente, dotar o logótipo de características que o tornem único e memorável.

Note-se a diferença que a hierarquização dos elementos do logótipo faz quando comparado com as letras simples em maiúsculas.

Utilizando esse contraste, aumenta-se o interesse das formas e a leitura do que é realmente importante.

O uso de letras simples e geométricas torna mais fácil a exploração e a manipulação de possíveis ideias, o que o uso de tipos de letras serifados e mais complexos não permite.

Idealmente, um logótipo deve explicar ou sugerir os valores da instituição que simboliza. Raramente tal é possível e, na verdade, tal nem sempre é necessário.

Não há nada no símbolo da IBM que sugira computadores, excepto aquilo que o observador lá coloca. As linhas do logótipo da IBM são associadas a computadores porque o símbolo de uma grande empresa de computadores as tem. O mesmo pode ser dito da maçã da Apple, do pavão da NBC, ou de inúmeras outras companhias cujas marcas façam parte do nosso imaginário.

Esses símbolos são dispositivos gráficos para embutir as marcas na nossa memória: linhas, maçãs, pavões… São factores mnemónicos.

Neste exemplo, a manipulação da forma das letras é um factor mnemónico. No entanto, como veremos, podemos ir mais longe.

QUE ASPECTO DEVE UM SÍMBOLO PARA A AAUE TER?

Um logótipo tipográfico ganha significado, ao longo do tempo, se estiver ligado a produtos que uma determinada instituição sistematicamente exponha junto do seu público.

Tal é verdade para empresas como Sony, a Nokia, a Kellog’s ou a Coca-cola: os seus productos são os portadores dos valores que a marca pretende transmitir, e um símbolo sobre a tipografia seria redundante.

Tal não é verdade para instituições de ensino, por exemplo, ou de serviços, que não podem depender de produtos que veiculem e cultivem os valores da sua marca. Nestes casos, o que é necessário é encontrar um dispositivo que tenha significado e que reforce a capacidade de uma marca ser recordada. Tem de ter impacto visual, ser fácil de memorizar e, de nenhuma forma, restringir a sua potencial aplicação em qualquer contexto.

Importa ressalvar, neste ponto, que o processo de desenvolvimento de um símbolo parte sempre do mais simples para o mais complexo. Fazendo o contrário é provável que não se consiga a adequação da solução a usos mais simples. Por exemplo, é impossível fazer de um símbolo visualmente complexo, com inúmeras cores, infinitos detalhes, e gradações, um pequeno carimbo a uma cor. No entanto é possível, partindo de um símbolo idealizado a partir da simplicidade, desenhar versões mais complexas para aplicações que o peçam.

No que diz respeito à forma, muitas instituições relativamente jovens (como a AAUE ou a própria Universidade de Évora) procuram dotar a sua imagem de alguma formalidade e património histórico recorrendo a dispositivos gráficos clássicos, como brasões ou, no caso de instituições universitárias, selos redondos, já que tem sido essa a tradição secular.

A própria Universidade de Évora utilizou uma variação do modelo do selo.

Embora seja uma fórmula que sobrevive ao tempo, alheia a modas, compromete a devida contemporaneidade e frescura de uma instituição como a AAUE.

No que diz respeito à simbologia a adoptar são vários os caminhos potencialmente interessantes.

Podemos seguir a iconografia histórica herdada por Évora (mourisca, romana ou medieval), mas tal não constituiria um reflexo justo de uma instituição jovem e dinâmica como a AAUE, nem do seu objecto.

A simbologia muito rica associada ao conhecimento e à educação também seria um caminho passadista e, ao mesmo tempo, uma imagem já esgotada por milhares de outras instituições que recorrem às mesmas imagens de sempre.

Outro dos caminhos mais imediatos seria recorrer a imagens simbólicas associadas a Évora mas, mais uma vez, isso só garantiria uma competição com as dezenas de outros símbolos de empresas e instituições assentes na mesma ideia.

O recurso a elementos literais, como um estudante trajado ou uma capa, seria uma solução óbvia, mas também uma perda de oportunidade incontornável. Um símbolo deve acrescentar algo àquilo que simboliza, e não apenas repetir aquilo que já conhecíamos dele. Uma marca é ao mesmo tempo uma síntese, uma mensagem e uma oportunidade de fazer memória: não é prático simbolizar um objecto com uma repetição desse mesmo objecto.

Seria como ter como símbolo de um Banco uma nota: já sabíamos que o Banco lida com notas e perde-se a oportunidade de se comunicar algo mais acerca do que define aquele Banco em particular.

No entanto a AAUE está ligada de forma umbilical a uma outra instituição.

Ao contrário de outras Associações de Estudantes, que representam várias academias ou (mais frequentemente) fragmentos da população estudantil de uma universidade (cursos, departamentos, escolas, faculdades, etc.), no caso da Associação Académica da Universidade de Évora há um paralelismo absoluto entre o corpo discente da UE e os associados da AAUE.

Sendo essa ligação evidente, é o organismo mais pequeno que mais pode beneficiar da associação das imagens de ambas as instituições.

O desafio reside, naturalmente, em fazer essa associação comunicando o diferente sistema de valores da AAUE, e mantendo uma marca claramente autónoma para si.

A associação da Pomba ao ensino e conhecimento não é inédita nem recente. Para além do exemplo da Universidade de Évora podemos notar o da Universidade de Coventry, entre inúmeros outros.

Na maioria dos casos, a representação da pombra, dada a natureza das instituições, é muito estilizada, formalizada e passiva.

Cremos que no caso da AAUE a busca é por uma imagem mais informal, agressiva, descomplexada e dinâmica.

A pombra, quando numa invulgar postura semelhante à de uma ave de rapina em ataque, funciona como mecanismo mnemónico: tem impacto visual e é fácil de recordar.

É desejável manter um tipo de letra simples, pouco manipulado, e pouco dependente de «modas», pois isso garante a unidade logótipo/símbolo e, ao mesmo tempo, que o conjunto sobreviva ao tempo sem perder qualidades.

Simultaneamente, também permite que se harmonize com qualquer outro tipo de letra que o acompanhe, o que é essencial para as aplicações práticas.

Mesmo assim, não deixa de ser importante que o tipo de letra seja personalizado e único.

A divisão do logótipo tipográfico em duas linhas traz-nos várias coisas: provoca o espectador, dotando a sigla de um novo interesse visual e separando-a mais facilmente do uso comum e, muito mais importante, permite o aumento do tamanho da letra para o dobro, no contexto do símbolo. Para aplicações de diminuta dimensão, o logótipo de uma linha seria demasiado pequeno para ser legível.

No seu desenho, arranjo de cores e orientação, este símbolo é um estudo de contrastes.

Inclinado num ângulo inesperado, traz informalidade, afabilidade e espontaneidade, ao mesmo tempo que a sua intensa silhueta negra se torna um ponto focal para os olhos difícil de evitar.

Inclinado em 15º, em si mesmo um dispositivo decorativo auto-contido, este símbolo não precisa de embelezamentos que lhe sejam exteriores ou de fundos sofisticados para o valorizar nas suas mais variadas aplicações.


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